27 August 2006

O Contínuo Sonho Acordado

É de facto uma visão recorrente, aquelas imagens distantes, apenas parcialmente visíveis, ocasionalmente imergidas nos sonhos; perdidas temporariamente neles...
(No seu palácio de sonho um senhor de muitos nomes, infindável na sua natureza, apraz aos seus deveres com abnegação devida e observa a ligeireza de mortais inconscientes.)
Uma rapariga que já não sonha há mais tempo do que se consegue lembrar depois de um longo sonho contínuo, desenrolado dia após dia como na fantasia de um conto. O bater na porta do quarto acorda-a custosamente no peso cada vez mais longo do seu difícil sono. O seu ambíguo vizinho, na ainda procura de quem é, temeroso do caminho que necessita percorrer surge-lhe diante do enevoado olhar. Uma igual rotina desocupada une estes dois seres improváveis num imbróglio que elas estão longe de imaginar. Depois de um café amargo e escolhido o tema do dia, na forma de um tabuleiro de xadrez, saem para umas compras que não podem fazer.
Ergue-se uma vasta imensidão montanhosa numa terra longínqua, desconhecida de muitos, mas já por todos visitada. A falha da sua memória é própria da sua natureza e da inconsciência humana. Numa pequena gruta escondida, coberta por um manto de neve, quatro criaturas de um sonho lastimam a decadência que se abateu e discutem o rumo a tomar para a preservação de suas existências. A resposta está na busca de outrem há muito ausente mas não esquecida. A procura de uma retoma de equilíbrio interrompido.
Na mistura de dois mundos somos um pouco de tudo. Os caminhos a percorrer são fruto de escolhas vindas de indecisões precisas, tomados como um desvio que julgamos controlar, para o sustento aparente da harmonia estrutural da nossa mente. A solidão que todos sentimos independentemente das nossas características pessoais manifesta-se das mais variadas formas porque pensamos nela. O homem devasso procura conforto na luxúria de mulheres só apetecíveis enquanto não as tem. A sordidez de um quarto anónimo, nuns mantos desconhecidos, a penumbra encobre os meios rostos que se querem incógnitos, nos gestos de uma intimidade que deveria ser sagrada. O calor aceso da fricção que duas peles diferentes uma na outra provocam. O gosto molhado de outrem, misticamente hipnotizador nos seus sabores únicos, nada mais trazem que uma indiferença desoladora. O interior do mais recôndito de seu ser é quente e macio, berço de vida na vertente astral dos corpos celestes. Mesmo os deuses têm de nascer... e eu... não sinto nada! Não sinto nada! Eu não sinto nada!
A conquista mata o mito.

M

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